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  • Patrícia Oliveira

美 měi - A Beleza na visão Oriental

Esse artigo é uma parte da minha monografia de especialização em Acupuntura:


A palavra beleza, segundo Houaiss e Villar (2009, p. 274), foi escrita pela primeira vez na língua portuguesa em 1572, assim definida:

qualidade [...] do que é belo; [...] caráter do ser ou da coisa que desperta sentimento de êxtase admiração ou prazer através de sensações [...] Característica daquilo que possui harmonia, proporção, simetria, imponência; [...] qualidade do ser ou da coisa que suscita admiração e um sentimento de adesão por seu valor moral ou intelectual.

Já o adjetivo belo remonta ao século XVIII. Em uma das suas definições, Houaiss e Villar (2009, p. 275) explica “que produz uma viva impressão de deleite e admiração [...] cujas qualidades, presentes em alto grau, o tornam destacado entre os seus congêneres”.

Pode-se ver que, pelas definições acima, a beleza e o belo são subjetivos e diretamente ligados a impressões individuais, sociais, culturais e históricas.

Já a palavra estética, é bem mais recente no idioma. Houaiss e Villar (2009 p. 833) datam como primeira referência no português o ano 1833, e a define como parte da filosofia voltada para reflexão a respeito da beleza sensível e do fenômeno artístico; harmonia das formas e das cores e ramo da atividade profissional que tem por fim corrigir ou minimizar problemas cutâneos, capilares, entre outros, assim como conservar beleza física de uma pessoa.

O objetivo do trabalho é abordar a beleza pelo ponto de vista chinês. Não se pretende aprofundar na estética e padrões de beleza ocidentais, que se baseiam na Estética grega, onde havia culto ao corpo e à harmonia das formas, mas tudo girava em torno da Geometria, inclusive a valorização da proporção divina (do latim Sectio Divina ou Sectio Aureae). O Φ era a representação Divina nesse mundo e a geometria a explicação de tudo; nas palavras de Pitágoras “tudo é organizado pelo número” (RIBORDY, 2012). Esse padrão grego já não se vê nas culturas orientais, onde tudo está em constante mutação e a Matemática não pode explicar nada de forma definitiva.

Na Índia, a extinta cultura dos Samkhya, que nos legou os Vedas, o Yoga e o Ayurveda, era uma cultura matriarcal, sendo a Energia Feminina o Princípio criador. O Brahman, ou seja, a Energia Universal tem três personificações: Brahman (Criador), Vishnu (Mantenedor) e Shiva (Transformador). Essas energias têm seus aspectos femininos que são denominadas: Saraswati (a sabedoria), Laksmi (a beleza) e Parvati – a guerra (MITTELSTADT, 2012). Pode-se ver que nessa cultura a beleza faz parte da trindade universal, sendo a deusa Laksmi, bastante popular entre os hindus .

Figura 1 – A trindade Hindu e suas esposas, representando a indissociabilidade dos princípios Masculino e Feminino. No centro vemos Vishnu e Laksmi
http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/e/ef/ Brahma,_Vishnu_and_Shiva_seated_on_lotuses_with_their_consorts,_ca1770.jpg

Figura 1 – A trindade Hindu e suas esposas, representando a indissociabilidade dos princípios Masculino e Feminino. No centro vemos Vishnu e Laksmi


A única cultura que se mantém viva desde a antiguidade até os dias atuais é a chinesa que, embora patriarcal, a mulher desempenha uma função importante visto que a família e suas relações hierárquicas foram a base da formação da sociedade chinesa (FUNG YU-LAN, 2011).

Os primeiros assentamentos chineses estabeleceram-se ao longo do rio Amarelo e do vale do rio Wei, e provavelmente existia o culto da Mãe Terra da fecundidade dando importância à relação mãe-filho, relação essa que garantia a continuidade do clã, pois a mãe é certa enquanto o pai muitas vezes é incerto (AMARO, 2014).

A própria criação da humanidade se deve a 女媧 Nü Wā e não a seu esposo 伏羲 Fú Xī, que nos deixou o 八卦Bā Guà e o Diagrama do Rio (INADA, 2008, p. 54) – Figura 2.

Nü Wa reparando os pilares do Céu
http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/4/49/Nuwa.jpg

Figura 2 – Nü Wa reparando os pilares do Céu


Posteriormente, com a unificação dos clãs em Estados, a mulher foi perdendo seu papel na sociedade e culmina com a subordinação da esposa ao esposo; essa estrutura foi consolidada pelo confucionismo (AMARO, 2014). A partir daí, também o padrão de beleza passa a ser de uma mulher frágil, magra e pálida, que aparentava uma fraqueza quase doentia (IKEDA, 1998).

Na dinastia Song (960-1279 E. C), o estado da mulher declinou com a expansão do neoconfucionismo. A história relata que o imperador Li Yu tinha fetichismo por pés. Ele fez sua concubina (窅娘 Yǎo Niáng) executar uma performance de dança chamada de dança dos dedos na qual seus pés estavam enfaixados (Figura 3). O imperador expressou admiração exclamando “Veja! Uma primavera de lótus dourados se abre sobre seus pés” (CONROY, 2014).


https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/6/60/Fan_Bingbing_%28%E8%8C%83%E5%86%B0%E5%86%B0%29%2C_2017_%28cropped%29.jpg

Figura 3 – Fàn Bīngbīng ( 范冰冰 ), atriz chinesa.


Várias mulheres da corte seguiram esse “padrão de beleza” que foi expandindo-se através das dinastias até ser proibido pela república chinesa e totalmente banida após a revolução popular socialista chinesa.

Hoje o padrão de beleza de uma mulher chinesa se enquadra em uma mulher magra, com pele clara, rosto ovalado no formato de semente de melancia (Gua Zi Lian), olhos esticados e vivos, e cabelos pretos e brilhantes (DIAS, 2013).

Referências:

AMARO, Ana Maria. Sinologia e Confucionismo: A Importância dos Estudos Confucionistas para a Compreensão da Civilização Chinesa. In: BUENO, André; NETO, José Maria. Antigas Leituras: Visões da China Antiga. União da Vitória, PR: UNESPAR, 2014. p. 41-55.

CONROY, Hannah. Female Body Modification through Physical Manipulation: A Comparison of Foot-Binding and Corsetry. 2014. 41 f. TCC–Carroll College, Montana, USA, 2014.

FUNG YU-LAN. A Short History of Chinese Philosophy. New York: The Free Press, 2011.

HOUAISS, Antônio e VILLAR, Mauro de Salles. Dicionário Houaiss de Língua Portuguesa: com a Nova Ortografia da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Objetiva, 2009.

IKEDA, Daisaku. Sobre a Beleza Feminina. 1998. Disponível em: < http://www.maisbelashistoriasbudistas.com/belezafeminina.htm>. Acesso em: 18 abr. 2015.

MITTELSTADT, Dulciana Doneda. Krishna: Os três mundos e a Noção de Pessoa Vaishnava. 2012. 118 f. TCC–Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2012. Disponível em: <https://www.lume.ufrgs.br/bitstream/handle/10183/66990/

000871804.pdf?sequence=1>. Acesso em: 2 maio 2015.

RIBORDY, Léonard. Arquitetura e Geometria Sagradas pelo Mundo: À Luz do Número de Ouro. São Paulo: Madras, 2012.

DIAS, Helena. A Beleza da Mulher Chinesa: A Beleza Chinesa. Centro Cultural Luso Brasileiro, 8 fev. 2013. Disponível em: <http://cclbdobrasil.blogspot.com.br/2013/02/a-china.html>. Acesso em: 26 nov. 2014.

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